O uso das técnicas de cadeiras na terapia do esquema
24 de Março de 2026
O conceito técnicas de cadeiras se refere a um conjunto de intervenções experienciais que utilizam cadeiras e suas posições relativas para fins terapêuticos, englobando diálogos, dramatizações, role-plays e reencenações.
Essas técnicas advêm do psicodrama, forma de psicoterapia experiencial em grupo desenvolvida por Jacob Levy Moreno, e foram posteriormente adaptadas para a prática da gestalt-terapia individual por Friedrich Salomon Perls.
Desde então, estudos têm mostrado que o trabalho com cadeiras pode ser empregado tanto como uma abordagem psicoterapêutica independente quanto integrado a outros modelos de psicoterapia.
Hoje, as técnicas de cadeiras estão amplamente incorporadas em diferentes abordagens, entre as quais se destacam a terapia do esquema (TE), a terapia focada nas emoções (TFE), a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e, mais recentemente, a chairwork psychotherapy e os quatro diálogos.
Multiplicidade
Trata-se de técnicas fundamentadas no princípio da multiplicidade do self, segundo o qual os indivíduos são compostos por diferentes partes, também chamadas de modos ou vozes, cada uma com funções, mensagens e histórias próprias.
De acordo com Scott Kellogg, o trabalho com cadeiras parte da premissa de que, ao tornar conscientes e expressar os conflitos e crenças presentes nessas diferentes partes, os indivíduos podem compreendê-las de forma mais clara e, assim, tomar decisões mais autônomas, no lugar de agir de modo inconsciente e automático.
De fato, as cadeiras podem representar qualquer elemento relevante ao processo terapêutico, como partes, sintomas, emoções ou figuras importantes. Seu uso envolve duas formas principais de intervenção: criar diálogos entre diferentes partes do self ou convidar o paciente a vivenciar um encontro imaginário com alguém do passado, presente ou futuro.
Quando inseridas no contexto terapêutico, funcionam como símbolos que tornam tangíveis essas relações entre as diferentes partes do self ou entre o self e outras pessoas, criando um potencial relacional e representando uma oportunidade única para processar experiências emocionais e ampliar sua compreensão a partir de diferentes perspectivas.
Princípios
Segundo Kellogg, os quatro princípios fundamentais do trabalho com cadeiras são: é clinicamente útil compreender as pessoas como compostas por diferentes partes, modos ou vozes; é curativo e transformador permitir que essas partes tenham voz; também é curativo encenar ou reencenar cenas do passado, do presente ou do futuro; o objetivo final do trabalho é sempre o fortalecimento do adulto saudável.
Os pacientes são incentivados a utilizarem as cadeiras para enfrentar sua realidade interna de maneira mais direta, reviver experiências passadas e presentes ou imaginar cenários futuros.
Ao trocar de cadeira, o indivíduo assume a perspectiva de uma parte de si mesmo ou de outra pessoa, expressando pensamentos, sentimentos e desejos a partir dessa nova posição.
O deslocamento promove distanciamento físico, cognitivo e emocional, facilitando uma visão mais clara dos próprios padrões e abrindo espaço para insights profundos sobre a origem e a manutenção de problemas e sintomas. Além disso, oferece um espaço seguro para experimentar novas formas de interação e ensaiar comportamentos mais funcionais antes de aplicá-los na vida real.
Esses fatores também favorecem os processos metacognitivos, pois transformam aspectos internos abstratos em realidades concretas e visíveis, possibilitando que sejam observados, nomeados e transformados.
A segurança oferecida pela natureza simbólica do exercício, aliada à presença acolhedora do terapeuta, cria condições para o surgimento de diálogos que dificilmente aconteceriam em outro contexto.
Lançamento
O livro “Técnicas de cadeira em terapia do esquema: teoria, prática e estratégias avançadas”, de autoria do psicólogo Rodrigo Trapp e publicado pela Sinopsys Editora, apresenta o poder transformador das cadeiras na psicoterapia. Mais do que técnica, elas são um convite para que emoções, esquemas e modos internos ganhem voz e forma.
Direcionada a estudantes e profissionais de psicologia, a obra mostra como a experiência é a linguagem essencial da transformação. Reúne sólida experiência clínica e acadêmica, integrando aprendizados com importantes referências da psicoterapia experiencial e cognitiva.
O leitor encontra fundamentos teóricos claros, roteiros práticos e estratégias para desafios reais do consultório. As técnicas deixam de parecer arriscadas e passam a ser um caminho estruturado, com direção e propósito.