Frente a frente com o tempo de uso das tecnologias
19 de Agosto de 2026
Para falar de gestão de tempo nas tecnologias, é preciso pensar na forma e no tempo dispensado usando-as. Se isso já é uma dificuldade para um adulto, que tem inúmeras responsabilidades, afazeres e deveres, imagine como é para um adolescente.
Conseguir gerenciar o tempo de uso é algo complicado, porque envolve, às vezes, ir na contramão da contemporaneidade acelerada e do ritmo frenético do mundo digital. Essa ação pode ser ainda mais difícil para os adolescentes.
Os jovens já nasceram em um tempo em que a velocidade está dobrada, como no símbolo 2x que aparece em áudios do WhatsApp. O objetivo é acelerar, não perder tempo, resolver ou ver rapidamente o estímulo.
Na percepção do mundo digital, a ideia é: por que eu preciso escutar alguém falando na velocidade normal se posso acelerar a fala e escutar em menos tempo? É isso que se passa na cabeça de muitos adolescentes.
Parar e pensar?
Nessa perspectiva, tudo é urgente. Tudo precisa ser imediato; é o famoso “para ontem”. Parar e pensar? Claro que não. Pensamos e fazemos. Ou melhor, fazemos e achamos que estamos pensando. A sensação de ser multitarefas e produtivo, combinada com o desejo de economizar tempo, acaba sendo uma importante característica dos jovens de hoje.
O que significa pensar? Talvez seja se deparar com sentimentos negativos e desconfortos. Será que os adolescentes realmente se sentem preparados para entrar em contato com isso? Quando entram, o que fazem? Silenciam, compartilham, choram escondido, tentam ignorar, buscam alternativas, entre outras ações.
Às vezes, essas estratégias, muitas vezes disfuncionais, envolvem a tecnologia, por meio de vídeos, por exemplo. É comum que os jovens procurem em vídeos (que precisam ser curtos ou passíveis de aceleração) algum relato de alguém que já sentiu algo parecido e compartilhou, a fim de “achar a sua comunidade”.
Relações
Contudo, o tempo acelerado não se restringe a buscas por entretenimento. As relações estabelecidas na adolescência – e não só nessa fase – estão sendo pautadas pela temporalidade: construímos e desfazemos amizades na velocidade da luz.
Afinal, a exposição e a conexão com o outro é tão intensa que a sensação de intimidade é quase imediata. Em uma hora eu amo, mas na hora seguinte (ou minutos depois), não amo mais.
Isso também ocorre com os términos. Foi-se o tempo em que se consertava eletrodomésticos, bem como o tempo em que se “consertavam” amizades. Não está bom? Troca, descarta, muda, ignora. Logo já aparece a possibilidade de se relacionar com outra pessoa, e isso precisa ser refletido.
Em relação à comunicação, é melhor, mais rápido e mais prático fazer uma ligação ou escrever? Escrever ou mandar um áudio? Mandar um áudio ou mandar um emoji? Parece que estamos em uma maratona digital e ganha quem tiver o melhor pace.
Sinal de alerta
Assim, cabe um sinal de alerta: as tecnologias estão por aí, e não podemos negá-las. Esse cenário não vai “retroceder”; a tendência é que o avanço tecnológico permeie cada vez mais as nossas vidas. Todos vamos conviver com as tecnologias.
Por isso, é essencial ter atenção ao gerenciamento de tempo e uso, uma vez que a intensificação e o superdimensionamento podem colocar o adolescente em risco de entrar em uma corrida frenética por usar, participar, relacionar-se, compartilhar e estar on-line o tempo inteiro.
O alerta também vale para a qualidade do tempo e para como as horas de vida do adolescente está sendo planejada e gerenciada. Estudos mostram que o uso excessivo de telas apresenta riscos à saúde física (e mental), como sedentarismo, obesidade, distúrbios do sono, fadiga ocular e dores musculares.
Além de conscientizar sobre essa problemática, é necessário limitar o tempo de uso de telas, para que os adolescentes tenham tempo para outras atividades importantes e fundamentais em suas rotinas, como a prática de exercícios físicos e a boa higiene do sono.
Literatura
O assunto é aprofundado no livro Conectados ou só compartilhando o Wi-Fi? Guia para se relacionar com adolescentes no mundo digital e fora dele, de autoria das psicólogas Marina Heinen e Ilana Fermann e publicado pela Sinopsys Editora.
De forma clara e acessível, a obra aborda questões fundamentais. Que adolescência estamos vivendo hoje? Quando o uso da tecnologia passa a ser problemático? Por que o ambiente digital ocupa um papel tão importante na vida dos jovens? Quais são os impactos emocionais, sociais e comportamentais desse uso?
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) se apresenta como uma abordagem essencial para compreender, prevenir e manejar os impactos negativos do uso das tecnologias; com base nela, o livro traduz temas atuais e necessários, como redes sociais, cyberbullying, necessidade de pertencimento, autodiagnósticos, filtros, autoestima e outros aspectos que fazem parte da rotina de adolescentes conectados.
O adulto leitor é convidado a refletir. Por meio de atividades práticas e questionamentos orientados pelas autoras, pais, professores e outros profissionais são conduzidos a pensarem sobre sua própria realidade, compreendendo melhor a relação com os adolescentes e construindo caminhos mais conscientes para lidar com o uso das telas e do mundo digital.