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Entre histórias de livros infantis e cliques nas telas

Entre histórias de livros infantis e cliques nas telas

02 de Setembro de 2026

Você já pensou sobre como a literatura infantil aborda as tecnologias digitais e de que forma os livros e as telas podem ser utilizados de maneira consciente e saudável com as crianças e seus familiares?

O produto educacional Entre histórias e cliques: cultura digital em práticas educativas de leitura na educação infantil, de autoria da pedagoga Michele Karina Bernardino Cantarelli, nasceu de uma inquietação que ela viveu intensamente nas interações com alunos de pré-escola.

Nas rodas de conversa, nos pequenos diálogos do dia a dia e nas brincadeiras livres, as crianças falavam com frequência sobre vídeos, jogos e aplicativos que acessavam em casa, muitas vezes sozinhas, sem a mediação de um adulto. Também demonstravam esse interesse no cotidiano da sala de aula, solicitando para assistir a desenhos ou ouvir músicas ao longo das propostas desenvolvidas.

Diante disso, Michele sentiu a necessidade de abrir espaço para o diálogo, não aquele que parte de julgamentos ou proibições, mas que escuta, acolhe e ajuda a refletir. “Foi assim que encontrei na literatura infantil uma maneira possível e verdadeira de conversar com as crianças e seus responsáveis sobre o uso crítico das tecnologias digitais”, conta.


Reflexão e prática

Vinculada à sua dissertação para a obtenção do título de mestre em ensino de ciências naturais e matemática pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), a publicação foi pensada para apoiar os professores da educação infantil e pode interessar a educadores de outras etapas, famílias e demais integrantes da comunidade que queiram refletir sobre o tema de forma sensível e consciente. O conteúdo não apresenta respostas prontas, mas convida à reflexão e à prática, oferecendo orientações para fortalecer o vínculo entre escola e família e ampliar o repertório literário e as práticas pedagógicas conscientes sobre o uso das telas.

A autora destaca a importância de abordar a cultura digital desde a educação infantil, porque as tecnologias digitais já fazem parte da sociedade atual e, consequentemente, das experiências das crianças. “Por isso, a discussão não pode se limitar a questionar se elas devem ou não ter acesso às tecnologias. É importante que, desde a educação infantil, sejam criadas oportunidades para elas conversarem e refletirem sobre essas experiências, contribuindo para que construam, gradativamente, formas mais conscientes de se relacionar com as tecnologias digitais”, ressalta.


Sobre a autora

Michele é professora efetiva da Secretaria Municipal de Educação de Rio do Sul, em Santa Catarina, atuando na pré-escola atualmente. Mestre em ensino de ciências naturais e matemática pela FURB, tem formação em educação infantil e séries iniciais; é especialista em orientação, supervisão e gestão escolar e em psicopedagogia clínica e institucional.

Com mais de 20 anos de experiência na educação infantil, desenvolveu pesquisas voltadas às relações entre literatura infantil e cultura digital nessa etapa escolar, com artigos publicados em revistas científicas e participação em congresso internacional na área da literatura. Atualmente, tem ampliado a divulgação de seu trabalho e do produto educacional Entre histórias e cliques (https://bu.furb.br/docs/DS/2026/372271_2_1.pdf), além de desenvolver propostas de formação para professores da pré-escola voltadas à literatura infantil e à cultura digital.


Como as tecnologias digitais estão presentes no cotidiano das crianças e quais conteúdos elas acessam?

Na minha pesquisa, feita com crianças da pré-escola, a presença das tecnologias digitais aparecia nas conversas e brincadeiras. Elas falavam sobre o que assistiam e jogavam em casa, mostrando que as telas já faziam parte de suas vivências. Entre o que aparecia nas falas, estavam principalmente vídeos, jogos e conteúdos do YouTube. Em vários momentos, inclusive durante as práticas de leitura, as crianças relacionavam as situações vividas pelos personagens das histórias com aquilo que elas próprias já tinham visto ou vivenciado no ambiente digital.

Essa presença das tecnologias no cotidiano das crianças reforça a importância de olharmos não apenas para o tempo que elas permanecem diante das telas, mas também para os conteúdos que acessam, para a forma como utilizam esses recursos e, principalmente, para o acompanhamento dos adultos nessas experiências.


Quando o acesso às telas pode prejudicar o pleno desenvolvimento infantil? E quais os possíveis prejuízos?

O acesso às telas pode trazer prejuízos principalmente quando acontece de forma excessiva e passa a ocupar um espaço muito grande na rotina da criança. Na infância, é preciso garantir tempo para brincar, movimentar-se, explorar, conviver e estabelecer relações com outras crianças e adultos. Quando a tela começa a substituir essas experiências, é preciso atenção.

Os estudos que fundamentaram minha pesquisa mostram que o uso excessivo e prolongado das telas pode reduzir as oportunidades de movimento e de experiências corporais, interferir no sono e favorecer o sedentarismo. Também são apontadas possíveis repercussões no desenvolvimento social e emocional, na convivência e na construção de vínculos, além do risco de desenvolver hábitos de uso excessivo.

É importante destacar que meu trabalho não busca criticar nem estimular o uso das tecnologias digitais, mas compreender que elas fazem parte da sociedade e, consequentemente, da infância atual. Por isso, além do tempo de exposição, precisamos olhar para o que as crianças acessam, como utilizam esses recursos e para a importância do acompanhamento dos adultos, buscando um uso mais equilibrado das tecnologias e preservando outras experiências importantes da infância. Nesse contexto, considero importante que a cultura digital também seja abordada desde a educação infantil, criando espaços para que as crianças possam conversar, fazer perguntas e refletir sobre as experiências que já vivenciam com as tecnologias em seu cotidiano.

Como e por que nasceu a ideia de criar o produto educacional Entre histórias e cliques?

A ideia nasceu de inquietações que foram surgindo ao longo da minha trajetória pessoal, profissional e acadêmica. Como mãe, eu já vivenciava o desafio de lidar com a presença das telas na rotina do meu filho e de buscar formas mais conscientes de mediar esse uso. Como professora da educação infantil, também percebia o quanto as tecnologias digitais faziam parte do cotidiano das crianças.

Durante o mestrado, especialmente a partir das discussões na disciplina de mídias e tecnologias no ensino e das conversas com professores, essas inquietações ganharam força e despertaram em mim o desejo de investigar outros caminhos para conversar sobre a cultura digital na infância. Foi então que encontrei na literatura infantil uma possibilidade de dialogar com as crianças e suas famílias sobre as tecnologias digitais.

Foi desse percurso que nasceu o produto educacional Entre histórias e cliques. O material sistematiza o percurso desenvolvido durante a pesquisa e foi pensado para inspirar outros professores da educação infantil a desenvolverem práticas de leitura que possibilitem conversar com crianças e famílias sobre a cultura digital, tendo a literatura infantil como ponto de partida e o professor como mediador dessas conversas.


Como o material foi utilizado na prática?

O produto educacional foi construído a partir das experiências durante a pesquisa com uma turma de pré-escola e suas famílias. Desenvolvemos o clube de leitura Era uma vez uma tela, com práticas de leitura tanto na escola quanto em casa. Na escola, as histórias eram mediadas por mim e davam origem a conversas, desenhos e outras produções, permitindo que as crianças relacionassem as situações vividas pelos personagens às suas próprias experiências com as tecnologias.

Em casa, os livros circulavam em sacolas do clube de leitura acompanhados de roteiros para auxiliar as famílias na leitura e no diálogo com as crianças. Também fizemos encontros com as famílias para compartilhar essas experiências. A partir desse percurso, foram sistematizados no produto educacional os roteiros de mediação, sugestões de diálogo e propostas de reflexão que podem ser adaptados por outros professores às diferentes realidades.


Como foi feita a escolha dos livros e por que incluiu o livro O menino verde: uma reflexão para pais sobre uso de telas e impactos no desenvolvimento infantil, da Sinopsys Editora?

A escolha dos livros foi feita por meio de uma curadoria de obras de literatura infantil relacionadas à cultura digital. Não bastava que o livro falasse sobre tecnologias digitais. Busquei obras de qualidade literária que proporcionassem às crianças experiências de fruição, interpretação e construção de sentidos. A partir disso, também foram considerados critérios como as possibilidades de diálogo e reflexão sobre as tecnologias, o brincar e a convivência, a expressão das crianças e a relação entre texto e ilustração.

O menino verde foi uma das obras selecionadas e também foi utilizado em um dos encontros com as famílias. Fizemos a leitura do livro juntos e, a partir da história, os pais puderam falar sobre o que compreenderam da narrativa, refletir sobre a presença das tecnologias em suas próprias rotinas e compartilhar suas percepções. A escolha dessa obra foi importante porque possibilitou olhar não somente para o uso das telas pelas crianças, mas também para o comportamento dos adultos e para as relações familiares, favorecendo o diálogo entre crianças e famílias.

Quais os resultados obtidos com esse trabalho?

Os resultados mostraram que a literatura infantil pode ser usada como um recurso para mediar conversas, tanto na escola quanto em casa, sobre a cultura digital desde a infância. As práticas de leitura criaram espaços de diálogo entre crianças e adultos, fazendo com que reflexões iniciadas na escola chegassem também às casas e ao cotidiano das famílias.

Um resultado bastante expressivo foi que 90,9% das famílias relataram mudanças nas atitudes das crianças relacionadas ao uso mais consciente das telas e ao maior interesse por outras atividades. Além disso, 93,8% dos responsáveis reconheceram a literatura infantil como uma estratégia para dialogar sobre o uso das tecnologias digitais.

O produto está liberado para quem quiser utilizar? Como acessá-lo?

Sim. O produto educacional Entre histórias e cliques está disponível gratuitamente e pode ser acessado por professores, famílias e demais interessados (https://bu.furb.br/docs/DS/2026/372271_2_1.pdf). O material foi pensado para inspirar práticas educativas de leitura e suas propostas podem ser adaptadas de acordo com a realidade de cada turma e contexto. A dissertação completa, que apresenta todo o percurso da pesquisa, sua fundamentação, seu desenvolvimento e os resultados, também está disponível gratuitamente (https://bu.furb.br/docs/DS/2026/372271_1_1.pdf).

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Tags

cultura digital, ambiente digital, tecnologias digitais, telas, uso consciente de telas, desenvolvimento infantil, educação infantil, práticas pedagógicas, literatura infantil, livros infantis

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