Transtorno do jogo: o que diferencia diversão de dependência?
16 de Dezembro de 2025
Carlos (nome fictício) tinha 28 anos, trabalhava com tecnologia, ganhava bem e gostava de se divertir com os amigos em jogos on-line e futebol. Tudo parecia sob controle, até que ele descobriu as bets.
No começo, apostava R$ 10,00 em jogos do Brasileirão, só para “dar emoção”. Em poucos meses, começou a depositar mais de R$ 300,00 por dia. Já não assistia aos jogos pelo prazer, assistia com o coração disparado, pois havia dinheiro envolvido.
Quando perdeu o aluguel do mês em uma aposta “quase certa”, chorou escondido no banheiro. A diversão havia virado vício.
Carlos não é exceção. Ele é o retrato do que acontece quando uma atividade aparentemente inofensiva ultrapassa um limite silencioso. A pergunta é: o que faz esse limite ser cruzado?
Diversão tem regras, o vício não
A aposta por diversão é como um jogo entre amigos: tem começo, meio e fim. A pessoa sabe que pode perder e encara isso com naturalidade. O dinheiro investido tem um limite claro, e o jogo ocupa um espaço específico na rotina, não rouba o sono, o tempo nem o equilíbrio emocional.
Já o comportamento dependente rompe essas barreiras, pois aumenta em frequência e intensidade; começa a interferir no humor, nas finanças e nos relacionamentos; é mantido mesmo diante de perdas significativas; ganha prioridade sobre outras áreas da vida.
Na prática, a diferença não está apenas no quanto a pessoa aposta, mas em como ela reage à aposta, à perda e à sensação de controle.
Quando prazer vira necessidade
Aposta recreativa gera excitação e prazer pontuais, já a compulsiva se torna uma válvula de escape emocional. Ela é usada para anestesiar sofrimento, buscar alívio imediato, preencher um vazio e fugir de problemas pessoais.
O problema é que o alívio é passageiro e o arrependimento costuma ser maior do que o prazer. Apesar disso, o ciclo se repete. Como em qual quer dependência, o cérebro passa a associar aquela atividade a uma falsa sensação de alívio e insiste nela mesmo quando os danos aumentam.
Primeiros sinais de transição
Muitos não percebem quando a aposta deixa de ser uma escolha consciente. Alguns sinais comuns da transição são: apostar sozinho e escondido, sentir culpa logo após apostar, recuperar perdas se torna uma obsessão, ficar ansioso ou irritado quando não aposta e negar que existe um problema.
Esses comportamentos não aparecem de uma vez, eles se instalam aos poucos, como infiltrações silenciosas em uma parede aparentemente sólida.
Perfil de risco
Nem todo mundo que aposta desenvolve dependência, mas há fatores que aumentam o risco, como histórico familiar de vícios, impulsividade elevada e transtornos psiquiátricos associados (depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade [TDAH] e transtorno bipolar).
Também estão na lista vivência de traumas ou perdas recentes, estresse crônico ou baixa tolerância à frustração e isolamento social. Essas vulnerabilidades não garantem o vício, mas funcionam como combustível em um sistema já inflamável.
Lançamento
O assunto é aprofundado no livro O que você precisa saber sobre o vício em apostas e tem medo de perguntar, que percorre desde a definição clínica do transtorno, passando pelos fatores de risco, funcionamento cerebral, impacto na família e principais armadilhas do discurso social sobre apostas, até chegar às estratégias de prevenção, intervenção e tratamento com base na terapia cognitivo-comportamental (TCC).
De autoria do psicólogo Igor Lins Lemos e publicada pela Sinopsys Editora, a obra combina rigor técnico e linguagem acessível, dialogando tanto com o leitor leigo quanto com profissionais da psicologia, da psiquiatria e de áreas afins para o enfrentamento dessa epidemia emocional moderna.
É destinada para usos clínico e familiar com adolescentes e adultos que apresentam comportamento de dependência em apostas a fim de auxiliar no tratamento psicoterápico e na psicoeducação sobre essa condição.
Faz parte da coleção O que você precisa saber e tem medo de perguntar, que visa esclarecer aspectos relacionados a transtornos mentais e outras condições para não especialistas.