A procrastinação está embutida em nosso DNA?
14 de Outubro de 2025
Uma das primeiras hipóteses levantadas por psicólogos para entender a procrastinação é a influência genética. Será que filhos de pais procrastinadores herdaram mais do que o hábito de deixar louça na pia para “depois”? Seria a procrastinação um traço passado de geração em geração, como um gene que grita: “Amanhã a gente resolve”?
Olhando para a evolução humana, desde os primeiros homo sapiens que começaram a adiar a caça porque o tempo estava “muito quente” ou “muito frio”, até as estatísticas modernas que revelam que 95% das pessoas admitem postergar algo, parece provável que exista um fundamento ancestral, embora mais acentuado em alguns de nós. O psicólogo Piers Steel sugere que essa predisposição pode ser explicada pela impulsividade embutida no nosso DNA.
Estudo publicado em 2014 analisou 181 pares de gêmeos idênticos (que compartilham 100% dos genes) e 166 pares de gêmeos fraternos (que compartilham cerca de 50% dos genes, como irmãos comuns), totalizando 663 indivíduos.
O objetivo foi testar a hipótese de que a procrastinação seria um subproduto da impulsividade, como defende Steel, além de investigar se ambas as características são hereditárias e como elas se relacionam com a capacidade de gerenciamento de metas.
Resultados
Os resultados apoiaram a teoria de Steel: procrastinação e impulsividade compartilham uma base genética substancial – embora o estudo não tenha determinado qual das duas é a origem da outra.
Não existe um gene “exclusivo” para cada característica, mas os dados indicaram que essas tendências são fortemente influenciadas pela genética. Além disso, a identidade genética entre gêmeos idênticos foi significativamente maior do que entre irmãos comuns para ambos os traços.
Mais importante, o estudo revelou que procrastinação e impulsividade estão diretamente relacionadas a dificuldades em cumprir ou manter metas de longo prazo, demonstrando o impacto dessas características na forma como as pessoas lidam com seus objetivos.
Papel da epigenética
A epigenética estuda as alterações duradouras no DNA que não modificam a sequência genética, mas ocorrem em resposta a fatores externos, como ambiente, alimentação, exposição a poluentes e até interações sociais. Esses processos acontecem justamente na relação entre os genes e o meio ambiente.
Em outras palavras, nossos genes não operam em isolamento; eles interagem constantemente com o ambiente, ajustando sua “ligação” ou “desligação” de acordo com estímulos externos. Na prática, isso significa que, mesmo que um dos seus pais ou até um irmão gêmeo idêntico seja um procrastinador inveterado, você não está condenado a seguir o mesmo caminho.
A herança genética pode influenciar, mas as contribuições epigenéticas – moldadas pelas circunstâncias e experiências de vida – têm um papel decisivo. O comportamento dos pais e sua atenção durante a infância, por exemplo, podem ativar ou manter “adormecidos” genes associados à impulsividade e procrastinação.
Esse campo de estudo, que está revolucionando nossa compreensão sobre hereditariedade, tem mostrado que fatores epigenéticos também influenciam condições como o câncer, uma das maiores preocupações da saúde moderna. Portanto, mesmo que a genética dê o empurrão inicial, é o ambiente que ajuda a definir os próximos passos.
Literatura
O livro A psicologia da procrastinação: a ciência e as emoções por trás do adiamento – e como agir agora, de autoria do psicólogo Marcelo Hugo da Rocha e publicado pela Sinopsys Editora, foi feito sob medida para você, que cansou de adiar seus sonhos e decidiu agir agora.
Com base em mais de 200 publicações científicas, reúne pesquisas sobre emoções, motivação, hábitos e gestão do tempo e as transforma em um manual prático para que a pessoa finalmente saia do “depois eu faço” e abrace o “começo hoje”. É direcionado tanto para psicólogos que queiram saber como abordar melhor o assunto em suas consultas quanto para o público leigo interessado.