Terapia de aceitação e compromisso para casais
21 de Maio de 2025
A terapia de aceitação e compromisso (ACT, do inglês acceptance and commitment therapy) faz parte da terceira onda da terapia comportamental, mudando a ênfase das intervenções terapêuticas do conteúdo de pensamentos e sensações dolorosas para a atenção plena e a aceitação de fenômenos internos.
A ACT está filosoficamente enraizada no contextualismo funcional, uma abordagem investida na compreensão do ato comportamental no contexto para melhor prever e influenciar a mudança de comportamento.
Com base nessas suposições, os terapeutas da abordagem procuram entender a função de um comportamento dados a história de aprendizado de um indivíduo e o contexto específico em que o comportamento ocorre.
RFT
A terapia de aceitação e compromisso também está vinculada a uma teoria da linguagem humana chamada teoria das molduras relacionais (RFT, do inglês relational frame theory.
A RFT é a teoria da linguagem e da cognição humana relativa ao conhecimento verbal ou a como os humanos conhecem o mundo com a mente (em oposição a conhecer o mundo por meio da experiência direta).
Conhecimento verbal (ou linguagem) e comportamento verbal (ou pensamento) incluem tudo o que ocorre na mente – descrever, planejar, resolver problemas, imaginar, prever, criar e assim por diante.
A pesquisa em RFT informa o papel do comportamento verbal no sofrimento humano, uma ideia fundadora para a ACT.
Ela demonstra como a linguagem é benéfica e problemática – dando às pessoas a incrível capacidade de expandir o conhecimento, criar, desenvolver e compartilhar, mas também a dolorosa capacidade de comparar e avaliar de maneiras negativas e prejudiciais.
Sofrimento humano
As relações que os humanos criam entre palavras e eventos e suas conexões entre sua experiência direta e o modelo mental do mundo são consequenciais, levando-os à realização e ao significado ou à tristeza e ao sofrimento.
Devido a isso, a ACT surge como uma intervenção que visa explicitamente ao comportamento verbal que leva ao sofrimento humano.
A abordagem postula que uma causa primária de sofrimento é a inflexibilidade psicológica ou a persistência de comportamentos funcionalmente ineficazes em face do contexto atual e dos valores pessoais, geralmente devido ao domínio de processos verbais.
Flexibilidade
O objetivo da terapia de aceitação e compromisso é diminuir a rigidez e aumentar a flexibilidade a serviço da “trabalhabilidade” (workability) – ou o que leva os pacientes a viverem bem com base em valores pessoais.
A ACT usa a funcionalidade comportamental de acordo com valores livremente escolhidos e, como consequência, o critério de sucesso.
Em vez de focar diretamente na mudança de eventos psicológicos privados, as intervenções buscam mudar as funções desses eventos e o relacionamento do indivíduo com eles.
Os pacientes são apoiados na mudança de ver a experiência interna avaliada negativamente como um problema a ser resolvido para um “evento” fluido a ser experienciado.
Em última análise, a ACT objetiva e reduz a evitação experiencial prejudicial ao mesmo tempo que incentiva as pessoas a fazerem escolhas poderosas para melhorar a vida com base em seus valores.
Relacionamentos
Embora a ACT seja geralmente uma psicoterapia individual, ela pode ser bastante útil para casais, com o terapeuta avaliando e intervindo nos processos individuais de inflexibilidade, ao mesmo tempo que considera os problemas de controle excessivo e intervém nos processos rígidos entrelaçados que levam a rupturas nos relacionamentos.
Como uma intervenção baseada em comportamento, a abordagem ajuda os casais a se abrirem para sua experiência interna, desfusionando-se de pensamentos e histórias sobre seus parceiros enquanto aceitam suas próprias emoções e as emoções um do outro.
Isso implica prestar atenção à sua própria experiência interna, vê-la pelo que ela é (pensamentos, sentimentos, sensações), e não pelo que ela diz que é (terrível, precisando ser eliminada), percebendo cada uma à medida que vai e vem, ao mesmo tempo que reconhece o movimento da experiência interna em seu parceiro.
Aqui e agora
A ACT para casais também engloba promover a consciência do aqui e agora, sintonizando menos com as mágoas do passado e as preocupações com o futuro. Em vez disso, ela se conecta com a vida neste momento e com o que ela contém.
Essa consciência envolve o reconhecimento de um senso transcendente de si mesmo que é mais do que qualquer pensamento, sentimento ou sensação, permitindo a escolha livre de qualquer senso particular de identidade que uma pessoa tenha sobre si mesma na parceria ou sobre o outro.
Por fim, a abordagem trabalha com casais que optaram por ficar juntos para clarificar e definir valores e significados ao mesmo tempo que apoia ações comprometidas que trazem esses valores à vida.
A ACT para casais trata de se mover em direção a uma vida rica e comprometida baseada em valores dentro de um contexto amoroso de conexão e crescimento.
Literatura
Esse e outros assuntos são aprofundados no livro ‘Terapias comportamentais contextuais para as dificuldades nas relações amorosas’, organizado pelas psicólogas Mara Lins e Johanna Sánchez e publicado pela Sinopsys Editora.
Com um time renomado de autores, a obra oferece uma visão inovadora e inclusiva da terapia de casais, integrando diversas abordagens contextuais sob a ótica da ciência comportamental contextual (CBS).
Trata-se de um recurso essencial para profissionais interessados em aplicar princípios da flexibilidade psicológica na terapia relacional, fornecendo ferramentas práticas e insights valiosos para terapeutas, ajudando-os a apoiarem casais na construção de relacionamentos flexíveis, resilientes e gratificantes.