Abordagens cognitivo-comportamentais na psicologia escolar
16 de Dezembro de 2022
As abordagens cognitivo-comportamentais (ACCs) no Brasil, assim como nos Estados Unidos, tiveram sua origem na análise do comportamento e na terapia comportamental (TComp).
Durante a década de 1960, com a vinda do psicólogo e professor norte-americano Fred Keller para ministrar um curso de psicologia animal e comparada na Universidade de São Paulo (SP), iniciou-se o ensino da análise experimental do comportamento (AEC) no país.
Durante sua estada no Brasil, Keller, juntamente com seu conterrâneo John Gilmour Sherman (psicólogo) e os brasileiros Carolina Bori (psicóloga) e Rodolfo Azzi (filósofo), também participou do planejamento e início do curso de psicologia na Universidade de Brasília (UnB), em 1964, idealizado com base nas propostas de ensino da análise do comportamento.
No ano seguinte, com o golpe militar, o curso foi interrompido, os professores se demitiram e se deslocaram para diferentes estados do país, o que foi denominado a diáspora da análise do comportamento.
Esse evento foi muito importante para a disseminação do ensino e da aplicação de intervenções clínicas na abordagem comportamental, na época denominada modificação do comportamento (MC).
A aplicação clínica da MC constitui-se como uma das origens da TComp no Brasil e foi responsável pelas especificidades brasileiras dessa intervenção clínica.
TRANSPOSIÇÃO
Diversos modelos já testados pelas abordagens cognitivo-comportamentais podem ser transpostos com sucesso para o contexto da psicologia escolar. Como exemplo, é possível citar o princípio fundamental da terapia cognitivo-comportamental do empirismo colaborativo.
As ACCs já encontraram evidências científicas que suportam a ideia de que o empirismo colaborativo, em outras palavras, a colaboração em termos de aprendizagem, do paciente com o terapeuta, é eficaz para mitigar uma série de sintomas relacionados a doenças mentais.
Portanto, o conceito de que o terapeuta deve ensinar ao paciente estratégias para lidar com suas dificuldades já tem um embasamento dentro da ciência.
Assim, o psiquiatra norte-americano Aaron Beck propôs que o terapeuta deve, durante a psicoterapia, adotar uma postura de, por meio de um processo de ensino e aprendizagem, eliciar a autonomia nos pacientes. Isso só é possível a partir de um papel participativo e colaborativo por parte do paciente e também do terapeuta.
Esse mesmo raciocínio poderia ser estendido às práticas educacionais. Assim, a participação de professores e alunos na construção de estratégias de aprendizagem, ideia que pode ser derivada do princípio do empirismo colaborativo, pode ser interessante para se criar, dentro do contexto escolar, intervenções capazes de gerar mudanças que favoreçam a aprendizagem.
Esse ponto traz uma ponte possível entre a abordagem científica proposta pelas ACCs dentro do contexto escolar. Assim, é proposta aos educadores e aos psicólogos escolares a adoção dos modelos de intervenção adotados pelas abordagens cognitivo-comportamentais como uma nova linha de pesquisa para a área da educação.
Trata-se de um desafio de criar uma psicologia escolar baseada em sólidas evidências científicas que poderia ser adotada em diferentes escolas e, assim, estruturar cientificamente o campo da psicologia escolar.
LEITURA
O livro “Abordagens cognitivo-comportamentais no contexto escolar”, organizado pela neuropsicóloga e psicopedagoga Juliana Mendes Alves e publicado pela Sinopsys Editora, integra conhecimentos e técnicas oriundos das neurociências e das abordagens cognitivo-comportamentais ao já amplo universo da pedagogia e da educação em geral.
Essas duas áreas do conhecimento têm se desenvolvido muito nas últimas décadas, especialmente em função de um grande conjunto de pesquisas que vêm sendo feitas. Colocar esses avanços à disposição dos educadores, em linguagem acessível a eles e com objetivos práticos e úteis, contribui para sua maior capacitação para a intervenção junto aos alunos.
